quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Adeus, Fábio Silveira


Outro dia fui ao velório do Fábio Silveira, querido Fabinho como era chamado por nós. Morreu vítima de um enfarto fulminante, aos 64 anos. Fiquei impressionado ao vê-lo no caixão com o rosto escurecido e, sinceramente, me arrependi de ter ido até lá. Não era essa a imagem que queria guardar do Fábio, definitivamente. As imagens boas, os sons que ele me ensinou a apreciar, estes sim estarão sempre comigo. Foi um dos maiores locutores que passaram pela Rádio Piratininga de São João da Boa Vista, onde ingressou aos 12 anos de idade. Apresentou programas que marcaram época: “Terra Sempre Terra”, “ A Saudade Também é Jovem”, “Música e Poesia”, “Rotativa no Ar” e também militou na área esportiva, comandando a “Sala Nacional dos Esportes”, o mais completo plantão esportivo da média mogiana. A voz calma, o jeito pacato e a grande paixão que tinha pelo rádio fizeram dele um profissional dedicado. Mergulhado na histórica discoteca da Piratininga, em meio a vinis e acetatos, ele garimpava raridades que abasteciam as duas velhas pick-ups de feltro verde que ficavam do outro lado do “aquário” e transmitiam aquelas canções que embalavam os sonhos dos ouvintes e também os meus. Cresci ouvindo o Fábio, e dele criei uma imagem particular, idealizada, coisa que só o rádio permite. Quando nos conhecemos, em 1988, tornamo-nos amigos e eu logo me apressei em beber daquela magnífica fonte de onde jorravam nomes de músicas e cantores de todos os gêneros, numa cultura musical fora de série. Fábio amou e deu sua vida ao rádio. Ao se afastar dos microfones experimentou a depressão, o ostracismo, a tristeza. Só não experimentou a indiferença dos amigos, entre os quais me incluo.

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sábado, 19 de setembro de 2009

Rádio, minha vida

Devo tudo o que sou ao Rádio. Estou nele desde a adolescência, quando vi pela primeira vez a luz acesa no estúdio indicando "No ar" e me obriguei a soltar a voz. Sou grato ao rádio pelos muitos amigos que me deu, pelos conhecimentos que me proporcionou e pela imensa alegria de poder compartilhar tudo isso com os ouvintes. O grande radialista Hélio Ribeiro sintetiza, nesta mensagem, o significado do Rádio para todos nós que amamos esse meio de comunicação.

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sábado, 15 de agosto de 2009

O Povo


Eça de Queiroz


Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.

Estes homens são o Povo.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, ruídos de frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.

Estes são o Povo, e são os que nos alimentam.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.

Estes homens são o Povo, e são os que nos vestem. Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.

Estes homens são o Povo, e são os que nos enriquecem. Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nos conservemos o nosso descanso opulento.

Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem. Estes homens formam equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens são os que nos servem.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?

Primeiro, despreza-os, não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende a uma miséria que os esmaga; não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.

É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo Povo.

E ainda que não sejam escutados têm na amizade dele uma consolação suprema.

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domingo, 5 de julho de 2009

Michael “Neverland” Jackson

Vi o Antonio Abujamra recitar no final do seu "Provocações", anotei o nome do autor - Silas Corrêa Leite - e fui pesquisar no Google. Encontrei o que, em minha modesta opinião, de mais tocante, sensato e verdadeiro se escreveu sobre a vida e a morte de Michael Jackson.


Michael Jackson era negro e queria ser branco (com sua cota ancestral de dor negra)
O que o vitimizou – como um estigma
Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)
O que o desconfigurou como um estorvo
Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)
O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco
Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)
O que o marcou como ser na identificação de.
Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar
Cantava dançava compunha dirigia criava voava
Um quase preto homem-menina com desvios íntimos
Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos
E uma alma sempre criança mal-amadurecida
Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos
Fugiu-se na música – as ousadas canções
Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras
Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos
O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro
Muito além dos píncaros da glória efêmera...
Agora não tem cor – Não há cor na morte
Agora não tem posses – Nada levamos daqui
Agora não tem sexo – A terra há de comer
Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó

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domingo, 3 de maio de 2009

Entrevista: Dante de Oliveira

O Movimento Diretas-Já completa 25 anos em 2009. Seu principal personagem, Dante de Oliveira, morto em julho de 2007, concedeu-me entrevista em 2004, que reproduzo neste post. Também estão postados nos arquivos do blog dois podcasts que trazem um programa de rádio sobre o tema.

“NINGUÉM IMAGINAVA QUE A POPULAÇÃO PUDESSE REALIZAR UM MOVIMENTO TÃO FORTE COMO AQUELE”

Passados vinte anos das Diretas-Já, um dos principais articuladores do movimento pela redemocratização do país, o ex-deputado federal Dante de Oliveira, comenta os fatos que marcaram a vida política do Brasil no período entre 1983 e 1984. Em entrevista ao “O Município”, no último dia 15/06, o autor do projeto de Emenda constitucional que propunha o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República chegava a Cuiabá, vindo de São Paulo, onde havia apresentado ao presidente Lula uma cópia de “Diretas-Já: 15 meses que abalaram a Ditadura” (Editora Record). O livro foi escrito em parceria com o publicitário e ex-deputado Domingos Leonelli e lançado na 18ª Bienal. Dante de Oliveira relembra o ambiente hostil de Brasília na véspera e no dia da votação (e derrota) da Emenda batizada com seu nome, quando o Exército impediu que manifestantes de todos os cantos do país tivessem acesso ao Congresso Nacional. Ele destaca a importância da imprensa no episódio e revela que o crescimento do movimento das Diretas, com a realização dos grandes comícios nas capitais brasileiras, surpreendeu os líderes dos partidos que encabeçavam a luta. Ao citar que as Diretas deram três presidentes ao Brasil – Tancredo Neves, Fernando Henrique e Lula – o ex-ministro da Reforma Agrária do governo José Sarney, compara o governo petista a “um avião sem plano de vôo”. Dante de Oliveira, 52, elegeu-se deputado estadual em 1978, deputado federal (1982), prefeito de Cuiabá em 1986 e 1992, ministro da Reforma Agrária (1986) e governador de Mato Grosso por duas vezes (1994 e 1998). Atualmente é presidente estadual e vice-presidente nacional do PSDB.

Antonio Luiz Magalhães: Vinte anos depois da votação da Emenda de sua autoria, que avaliação o senhor faz daquele período?

Dante de Oliveira: Foi, sem dúvida, um dos períodos mais ricos da sociedade brasileira. Aquilo que começou como a simples apresentação de um projeto de Emenda constitucional, em 1983, que restabelecia o direito de votar para presidente da República, foi se avolumando cada vez mais. Na verdade, o movimento só cresceu daquela maneira porque havia, na sociedade, um esgotamento em relação à Ditadura. Vinte anos de regime autoritário, de arbítrio, prepotência, assassinatos, exílio, tortura, perseguições, censura, corrupção e de um modelo econômico perverso e concentrador de renda é que provocaram a enorme aceitação ao projeto, se transformando em algo muito acima daquilo que nós esperávamos. Tanto eu, como autor do projeto, quanto o doutor Ulisses Guimarães, Tancredo, Brizola, Lula... Ninguém imaginava que a população pudesse realizar um movimento tão forte como aquele.

ALM: Como estava o ambiente em Brasília na véspera e no dia da votação da Emenda?
D.O: No início, o regime ditatorial fez pouco caso, não levou a sério aquele projeto e nem a mobilização das forças democráticas. Na medida em que cresceu e se tornou um movimento unitário das correntes políticas do país, reunindo todos os partidos, a intelectualidade, os artistas, a imprensa, os empresários e o povo, a Ditadura se assustou. Em 84, depois dos grandes comícios de Curitiba, da Praça da Sé, Minas Gerais, Cuiabá, Salvador, Recife, de São Paulo, no Anhangabaú, e da Candelária, no Rio, é que eles (os militares) viram que tinham de pressionar o Congresso para que a sua base de sustentação não aprovasse as Diretas. Era muito complicado porque a população toda queria. O deputado, para votar contra, tinha que ter muita coragem, pois era votar contra o sentimento da nação, contra seus próprios eleitores. Então eles (Exército) pressionaram a base de sustentação e usaram do artifício da força, nomeando o general Newton Cruz comandante das forças militares de Brasília. Proibiram os ônibus que vinham do Brasil inteiro e se dirigiam a Brasília para a votação, censuraram a imprensa, proibindo a divulgação, e estabeleceram as medidas de emergência que foram uma calamidade, um acinte, um desrespeito. Só por isso conseguiram derrotar, em 25 de abril de 1984, a Emenda por 22 votos apenas.

ALM: E o papel da imprensa naquele processo?

D.O: A imprensa teve papel extremamente importante na propagação da idéia das Diretas. O Jornal Folha de São Paulo teve destaque histórico, depois outros jornais também aderiram. A TV Globo, no início, procurou esconder o movimento, mesmo assim, quando a população já nos comícios começava a gritar “O povo não é bobo, fora Rede Globo”, a emissora caiu em si e viu que não podia ficar contra. Aí a Globo entrou e também fez um trabalho importante na reta final para ajudar na divulgação das Diretas. Portanto, a imprensa teve um papel preponderante. Inclusive, hoje (15) pela manhã, em São Paulo, entregamos – eu e o ex-deputado Domingos Leonelli - nosso primeiro livro, que ficou pronto ontem à noite, “Diretas-Já: 15 Meses que Abalaram a Ditadura”, ao presidente Lula. Neste livro, procuramos ser bastante realistas quanto ao posicionamento da imprensa brasileira em favor da democracia.

ALM:
Muitos protagonistas do movimento das Diretas estão hoje no Poder. Como o senhor analisa o trabalho desses homens públicos, que empunharam a bandeira das Diretas, governando o país?

D.O: Aquele movimento já deu três presidentes da República. Infelizmente um não pôde governar – Tancredo – mas sua eleição foi conseqüência das Diretas, que desmontou o Colégio Eleitoral, porque o Tancredo acabou vencendo dentro do próprio território do inimigo. Depois veio o Fernando Henrique e agora, o Lula. A análise que eu faço é a seguinte: o Brasil, nestes 20 anos, conseguiu construir instituições democráticas muito sólidas. Temos um Congresso Nacional funcionando com liberdade, o Judiciário, o Ministério Público fortalecido após a Constituinte, a imprensa livre para expor suas opiniões, a liberdade de expressão. Porém o que faltou nestes 20 anos foi a redemocratização da renda, do emprego, da educação e da saúde. O grande desafio das novas gerações é dar conseqüência à democratização econômica e social do Brasil. Não podemos continuar sendo uma nação democraticamente de primeiro mundo e ver no campo econômico e social grassando ainda a miséria, a fome e o desemprego. Esperamos que estes democratas que lutaram tanto possam, junto com a sociedade organizada, construir um modelo econômico alternativo. Depositou-se muita esperança no presidente Lula, porque ele encarnava um discurso de mudanças. Mas, infelizmente, o que está demonstrado neste primeiro ano de governo é que não há projeto econômico e social alternativo. Eles ganharam o poder e não sabem o que fazer com este poder. Esqueceram que, para pilotar um avião, é preciso ter um plano de vôo. É isto que está faltando ao Brasil: um projeto de desenvolvimento de curto, médio e longo prazo capaz de fazer que aquele movimento pela redemocratização atinja os mais pobres, os assalariados e os desempregados, que são milhões hoje no país. Ouça a entrevista em almajornalismo.podbean.com

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Revistas Velhas


Aproveitando o ócio do feriado de carnaval fui revirar antigos papéis que insisto em guardar. Tenho em mãos dois exemplares da revista Manchete. Um data de janeiro de 1979, o outro, de maio de 1980. Na capa do primeiro, foto de Sônia Braga e o título “A verdadeira história de Dancin’ Days”, numa alusão ao grande sucesso televisivo protagonizado pela morena que encantou o Brasil na pele de Julia. Outro destaque da capa de Manchete: “As previsões de Alan Richard Way – O que vai acontecer em 79”. Da lista de vaticínios apresentada pelo guru norte americano, apenas as dificuldades que o general João Figueiredo enfrentaria em seu primeiro ano de governo se concretizariam. Já os problemas econômicos na Ilha, ao contrário do que previra , não fizeram Fidel Castro “pedir o boné e ir embora do governo de Cuba”. Na página política, o velho coronel Antonio Carlos Magalhães, forte candidato a ocupar uma vaga no ministério de Figueiredo, disputando – adivinhem! – com José Sarney. A matéria traz ainda fotos dos ministeriáveis Mário Andreazza, Delfim Netto, General Golbery e Mário Henrique Simonsen, egressos do ministério de Médici. Página 95. O veterano repórter David Nasser comemora quatro anos como colaborador da Revista e arremata o texto mencionando as agruras da vida de produtor rural na Fazenda que possuía em São João da Boa Vista. Anúncios do Novo Toca-Fitas Estéreo Motoradio e do Corcel 79 antecedem o depoimento de Darlene Glória – ex-atriz de pornochanchadas – a Ronaldo Bôscoli: “Darlene Glória morreu, viva a Irmã Helena”. Na página 104, Joel Silveira entrevista Dom Paulo Evaristo Arns, então líder do chamado episcopado engajado da América Latina. Falou da censura que se abatera sobre o jornal O São Paulo, editado pela arquidiocese paulistana entre 1972 e 1978. Texto primoroso, tanto pela grandeza do personagem quanto por quem o escreveu. Encerro o post com uma recomendação aos que gostam de guardar e de ler revistas velhas. Está nas bancas “Irmãos Karamabloch”, livro que conta a história de uma pequena gráfica que se transformou em um império de comunicações. Começou com a revista Manchete e chegou a incluir, em seus dias de glória, emissoras de rádio e tevê, gráfica, editora de livros e dezenas de publicações periódicas.

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Rádio Diretas - parte 1


Em 2004, por ocasião dos 20 anos do movimento pelo restabelecimento de eleições livres e diretas no Brasil produzimos, eu, Biagioni Neto, Tobias Valdissera e Benedito Mattos, sob coordenação da professora doutora em Comunicação Maria do Socorro Veloso, o documentário Diretas Já. O programa radiofônico traça uma linha do tempo e resgata os principais fatos políticos ocorridos a partir do Golpe Militar de 31 de Março de 1964 até abril de 1984, quando a emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso Nacional. Diretas Já é fartamente ilustrado por áudios históricos, depoimentos de personagens e músicas que marcaram aquelas duas décadas.

Ficha Técnica
Apresentação: Antonio Luiz Magalhães e Biagioni Neto
Texto: Antonio Luiz Magalhães
Pesquisa e reportagens: Tobias Valdissera e Benedito Mattos
Coordenação: Professora Doutora Maria do Socorro Veloso
Sonoplastia e Mixagens: Marco Antonio Ferreira Sacardo e Gustavo Risardo
Gravação: Rádio Mirante FM de São João da Boa Vista
Agradecimentos: Milton Parron (Rádio USP)

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